sexta-feira, 22 de abril de 2016

Belas e recatadas... o cinema que não vai para a capa de revista reacionária



Irascíveis, perversas, poderosas, vingativas, dominatrix, despachadas e chapadas, o cinema está repleto de exemplos de que se “mulheres boazinhas” vão para o céu, as “más” vão para onde quiserem. E nesses dias de recatadas do lar, fiz uma pequena lista de filmes com mulheres que honram as calças que vestem (ou despem). Convido a incrementarem essa lista.



À Prova de Morte (2007, Quentin Tarantino)

O filme é a segunda parte de um projeto (Grindhouse) criado por Tarantino e Robert Rodriguez. Aqui, o diretor de Bastardos Inglórios exercita o que vem a ser uma de suas principais marcas: a homenagem a estilos cinematográficos, carregada de violência e belas trilhas sonoras. O foco deste road movie são os filmes B dos anos 70, no império da estética exploitation: exploração do sexo, violência, drogas, nudez. E muita perseguição de carrões. Aqui se instaura uma primeira referência: carros possantes, cortando estradas empoeiradas pelo interior dos EUA, são ícones predominantemente da cultura do macho. Tarantino subverte essa lógica.
Na trama, o dublê de cinema Stuntman Mike (Kurt Russell) cruza as estradas com seu Chevy Nova preto deixando um rastro de mortes premeditadamente calculadas até encontrar com as belas Abernathy (Rosario Dawson), Arlene (Vanessa Ferlito), Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier), Shanna (Jordan Ladd) e Zoe (Zoe Bell).
O que no início se apresenta como personagens femininos escalados para serem objetos de fetiche e prazer do macho, se torna uma perseguição implacável de gênero, com a vingança final da força feminina contra a bruteza masculina. Não é um dos meus filmes preferidos do Tarantino, mas vale conferir.  





Thelma e Louise (1991, Ridley Scott)

Nenhuma lista de mulheres iradas no cinema foi escrita depois de 1991 sem contar com esse clássico comercial. Novamente, o automóvel (símbolo de poder masculino) é utilizado por personagens femininas no caminho da afirmação de sua liberdade. Thelma (Genna Davis) é uma dona de casa submissa ao modorrento cotidiano do casal. Louise (Susan Sarandon), uma garçonete que “seduz” psicologicamente a amiga para viverem a aventura de suas vidas, sem se desfazer de suas próprias tensões e contradições. E haja aventura neste filme que recebeu o Oscar de melhor roteiro.



A Girl Walks Home Alone at Night (2014, Ana Lily Amirpour)


O filme passou quase despercebido pelas salas do Brasil, como um suspiro noturno, mas, apesar de não ter maiores pretensões, é um independente que gosto e trata de forma imaginativa a atual luta feminista no mundo árabe. Muitos pensam se tratar de um filme iraniano, porém este primeiro longa da diretora e roteirista inglesa Ana Lily Amirpour (de descendência iraniana) foi filmado na Califórnia.
Na fictícia cidade iraniana Bad City, um jardineiro Arash (Arash Marandi) sofre com problemas financeiros por conta do pai viciado em heroína e acaba se transformando em traficante. Sua vida vai cruzar com uma misteriosa garota (Sheila Vand), provavelmente a primeira vampira de burca do cinema. E ela deixa claro para o garotão: “Sou má”.
Na melhor cena do filme, a vampira acompanha Saaed, um traficante musculoso e tatuado (Domic Rains), até a casa dele. A frágil garota parece presa fácil para o predador, que coloca o dedo na boca dela simulando uma felação. Advertência, nunca coloque o dedo na boca de uma vampira com afiados dentes caninos.
A Girl Walks Home Alone at Night é a vingança e reafirmação do poder feminino por meio da metáfora do Drácula.


Singapore Sling (1990, Nikos Nikolaidis)


Da Grécia vem esse perturbador filme em clima noir. Em uma mansão, mãe e filha vivem em constante atmosfera de perversão. A filha foi iniciada pelo pai, que tirou sua virgindade aos 11 anos. Após a morte do pai, mãe e filha continuam a saga orgiástica. Contratam empregados para servirem de objetos de rituais de prazer de ambas até o extremo. E entenda-se por “extremo” morte e canibalismo.
Certa noite, um agoniado detetive aparece na mansão à procura de Laura (que fora trabalhar na casa e desaparecera sem vestígios), enigmática paixão e objeto de obsessão do detetive sem nome. Elas o aprisionam e apelidam de Singapore Sling, em referência à receita da bebida encontrada em seu bolso. Ele acaba sendo submetido aos caprichos sexuais das mulheres, que transam entre si das maneiras mais bizarras. Em uma das cenas mais expressivas, a mãe faz sexo com o detetive Singapore, enquanto a filha quase chega a orgasmos eletrocutando o coitado. Ao final, a mãe urina na cara do detetive.
Mais uma vez, aqui, o feminino absoluto se vinga da fragilidade masculina que ousou ao desejo. Incesto, sadomasoquismo, fetiches, assassinatos, canibalismo e toda a sorte de perversão compõem esse filme que, definitivamente, não é para estômagos sensíveis.

Sendo submetido a satisfazer os caprichos sexuais das duas mulheres, que transam entre de couro enquanto o mesmo é eletrocutado. Para finalizar (com chave de ouro), ela ainda urina no rosto do homem

Shortbus (2006, John Cameron Mitchell)

Por conta de suas cenas explícitas de sexo, muitos consideraram esse underground como um filme pornô, mas essa é uma generalização fácil para digerir um filme que atua em diversas camadas metafóricas.  
Sofia (Lee Sook-Yin) é uma terapeuta sexual que não tem problemas para transar ardorosamente com o marido, mas que nunca chegou ao orgasmo. E essa dicotomia é a causa de sua mais profunda angústia: como aconselhar casais se ela própria parece incapaz de atingir o ápice do prazer na relação? E embarca, junto com seus pacientes – gays, dominatrix, drags - no extravagante submundo das perversões, em busca de si própria.  

Shortbus não é o tipo de película que agrade facilmente. Genitálias, gozos, secreções, sexo gay a três, relações sadomasoquistas, surubas e swings são estampados explicitamente. Apesar dessa babel, é um filme sobre as possibilidades do amor e seus desencontros. 
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