quinta-feira, 13 de outubro de 2011

AGROTÓXICOS: O veneno nosso de cada dia


O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. A comida que você compra no supermercado, embalada a vácuo, que parece ter sido lustrada com verniz contém, cada vez mais, substâncias químicas utilizadas para acelerar o processo de plantio e colheita e, consequentemente, dos lucros.

O uso excessivo do agrotóxico está relacionado ao modelo agrícola brasileiro, que se sustenta no latifúndio, na monocultura, na produção altamente mecanizada para a produção em larga escala.

Problemas para a saúde e para o meio ambiente
Grande parte dos substâncias químicas ingeridas pelo consumo de alimentos afeta diretamente nosso organismo e mesmo a sua simples manipulação por trabalhadores rurais causa problemas de saúde e está associada, inclusive, a tendências suicidas. Muitos desses produtos comercializados no Brasil formam banidos da União Europeia.

Estudo realizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) detectou no pimentão vendido nos supermercados, substâncias tóxicas no patamar de 64% além da quantidade permitida. Na cenoura e na alface foram encontrados 30% e 19% de agrotóxicos acima do estabelecido pela Anvisa. A quantidade limite de agrotóxicos e produtos proibidos são diferentes para cada cultura, mas é certo afirmar que estamos comento produtos envenenados.

Uma operação da Agência de Vigilância, que durou aproximadamente dez meses e visitou sete fábricas de agrotóxicos instaladas no Brasil, concluiu que seis desrespeitavam as regras sanitárias e tiveram as linhas de produções fechadas temporariamente. Entre as irregularidades encontradas, estão o uso de matéria-prima vencida e adulteração da fórmula.

Um estudo coordenado pela Universidade Federal do Mato Grosso constatou e existência de resíduos de agrotóxicos no ar respirado em escolas da zona rural e urbana de municípios que plantam soja.

Foi verificado que os agrotóxicos estão alojados, inclusive, no sangue e na urina. O levantamento monitorou a água dos poços artesianos e identificou a existência de resíduos de agrotóxicos em 32% das amostras analisadas. Em 40% dos testes com a água da chuva, também foi identificada a presença de venenos agrícolas. Nos testes com o ar, 11% das amostras continham substâncias tóxicas, como o endossulfam, proibido por ser potencialmente cancerígeno.

Não existe limite seguro
Um dos argumentos utilizados por empresas e grandes proprietários rurais é de que o uso e consumo de agrotóxicos é seguro dentro de determinados parâmetros. O médico e professor da UFMT, Wanderlei Pignatti, discorda dessa posição. Segundo ele, “não existe uso seguro de agrotóxicos. O uso deve ser considerado como uma poluição intencional.

A professora da Universidade Federal do Ceará, Raquel Rigotto, explica que não é possível separar os agrotóxicos da destruição do ambiente. “As empresas chegam e promovem o desmatamento, reduzindo a biodiversidade que é fundamental para manter o equilíbrio do ecossistema, fato que protege as lavouras contras as pragas. Em seguida entram com a monocultura que é a o oposto da biodiversidade. Depois aplicam uma série de práticas de fertilização, uso de agrotóxicos e critérios de produtividade para estressar as plantas e produzir rapidamente o fruto. Com isto a terra está respondendo de forma muito dolorosa”.

A certeza que fica é que cada um de nós está consumindo cada vez mais veneno – nos alimentos e no ambiente – para engordar os lucros de empresas e grandes agricultores.


Subcomissão na Câmara
No dia 2 de junho, os deputados integrantes da Subcomissão Especial sobre o uso dos Agrotóxicos aprovaram o plano de trabalho do grupo. A subcomissão integra a Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF) da Câmara dos Deputados. A proposta da comissão é avaliar os processos de controle e usos dos agrotóxicos e suas repercussões na saúde pública. A subcomissão se propõe a estudar os impactos dos agrotóxicos na saúde pública, repercussões na Previdência Social e consequências na Assistência Social e nas Famílias.


Um negócio de US$ 20 bilhões
(Jorge Américo – Radioagência ANP)

Para manter o nível de consumo, os fabricantes e fornecedores estão financiando a produção agrícola. Este incentivo consiste em fornecer, aos produtores insumos, as sementes, adubos, fertilizantes e pesticidas, além de assistência técnica. O pagamento é efetuado após a colheita, que recebe parte da produção.

Com isto, os produtores ficam reféns destas empresas. Um exemplo está na região do Vale do Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, conhecida pela forte presença da indústria fumageira. A integrante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Rosiele Cristiane, denuncia a exploração dos produtores de fumo, que, por meio de contratos, tiram o controle do agricultor sobre a sua produção.

“Antes de iniciar a safra, o orientador agrícola da empresa que presta a assistência técnica, que vai à casa das pessoas, faz o contrato com as famílias. Vê quantos pés de fumo eles querem plantar. Os agricultores assinam esse contrato sem ler: há várias promissórias, em branco também. E este contrato está dizendo que o agricultor não é dono do produto. Ele é o fiel depositário. Isto dá à empresa o direito de buscar o fumo, se o agricultor não entregar. Nos últimos anos, os agricultores estão esperando o melhor preço. Então, no início da comercialização, eles não estão entregando o fumo. Eles esperam até maio, junho, que é a melhor época para vender. Quando o fumo não é entregado para a empresa, e ela tem contratos a honrar no exterior, eles usam dessas artimanhas para buscar o fumo em casa”

A partir deste modelo de financiamento, a venda de defensivos agrícolas, no Brasil, pode crescer de US$ 6,6 bilhões para US$ 8,5 bilhões em cinco anos. No entanto, Rosiele alerta que a pressão das empresas já levou agricultores ao suicídio.

“Eu sempre falo do caso da Dona Eva, que foi uma agricultora. A indústria fumageira chegou à casa dela com o oficial de Justiça e a Polícia. Ela alegou que não tinha nenhuma dívida vencida. Era mês de fevereiro, e a dívida dela só venceria em maio. A empresa alegou ao juiz que ela estava desviando o produto. Ela se sentiu tão humilhada que, no mesmo instante em que eles carregavam o fumo do galpão, ela foi na varanda e se enforcou.”

O mercado mundial de agrotóxicos é dominado por seis empresas: Syngenta, Bayer, Monsanto, Basf, Dow, DuPont e Nufarm. Este negócio mais de US$ 20 bilhões por ano. O lucro cresce com a comercialização dos organismos geneticamente modificados: os transgênicos.

 

(Matéria produzida a partir de dados e reportagem da Radioagência NP)
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