quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Veja publicou a própria prova do (seu) crime

Reproduzo texto do jornalista Luis Nassif (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/veja-publicou-a-propria-prova-do-seu-crime) que demonstra como se constrói uma reportagem falsa (quesito que a Veja é especialista). Nassif trabalhou muitos anos na Veja e conhece os bastidores da pior revista do Brasil. Confira.


Vamos conferir direitinho o método de reportagem do Diego Escosteguy e da Veja.

Como expliquei no Twitcam, o jogo da manipulação consiste em pegar um conjunto de informações soltas, depois compor um roteiro à vontade do freguês, uma peça de ficção mas que contenha alguns ingredientes reais.

Como fez o Diego?

1.Levantou um contrato da Via Net Express com a Capital (do filho da Erenice) em que se fala em taxa de sucesso de 6%.
2.Diz que, pela Via Net, quem assina é o seu dono Fábio Baracat. Na verdade, Baracat nada tem a ver com a empresa, a não ser oferecer serviços eventuais.
3.Levanta matérias recentes da imprensa, sobre as ligações da MTA com a ANAC e os Correios.
4.Ponto: tem os contratos da MTA junto aos Correios e a comissão de 6%. Cruza uma com outra e tem-se o valor da propina.
5.Para fechar o elo, diz que Erenice «indicou» o tal coronel Quá-Quá para a ANAC. A prova: a assinatura dela na indicação. Não informa que todas as indicações para cargos públicos passam pela Casa Civil.
6.A partir dessa soma admirável, a revista faz toda sorte de elucubrações. Fala em financiamento do esquema, em reuniões fechadas, sem celular nem caneta e o escambau.
Infelizmente a revista não disponibiliza mais o conteúdo na Internet e meu scan aqui em casa dá incompatibilidade com o Mac. Peço que um de vocês escaneie trechos do tal contrato que a revista publica na página 81.

Lá se lê:

Cláusula 2.1 – São obrigações da Contratada:

a) Prestar serviços de consultoria e (...)

b) Representar a Contratante junto a instituições públicas e privadas, com zelo e probidade (...)

A revista sublinha esse trecho como se fosse incriminatório. Trata-se de texto padrão de qualquer contrato de consultoria. Deveria fazer parte da formação dos chamados repórteres invesgativos conhecimento básico sobre contratos.

Agora, ao que interessa: as formas de pagamento:

Cláusula Terceira – Do Pagamento

3.1 Pela prestação dos serviços, a Contratante pagará mensalmente à Contratada o valor de R$ 24.738,00 a título de remuneração (,,,)

E o que efetivamente interessa, a tal taxa de sucesso de 6%:

3.3 Na hipótese de êxito na prestação de serviços de assessoria relacionados à obtenção de empréstimos e/ou financiamentos junto à instituições nacionais ou internacionais, públicas ou privadas, a Contratada fará jus a 6% sobre o montante auferido ao final da transação.

Não tem nem ANAC nem Correios na tal taxa de sucesso.

A revista precisava mostrar a «prova» do pagamento de 6% de propina. Mas esse percentual não vinha separado: estava em um parágrafo inteiro que não podia ser suprimido. Precisou, então, publicar o parágrafo inteiro para expor o número mágico dos 6%. Publicando, matou ela própria sua matéria.

E aí fica-se sabendo que a taxa de sucesso nada tinha a ver com a ANAC, com contratos com os Correios, com renovação de concessão. Mas apenas no caso de obter financiamentos – que, pelas declarações do Baracat, nunca foram obtidos.

Check-up de todos os erros da matéria:

1. Apresentou um pequeno lobista de Brasilia, amigo do filho da Erenice, como dono da empresa que prestava consultoria à MTA.

2. Imputou à Erenice a indicação do coronel da ANAC, apenas devido ao fato de ela ter assinado sua nomeação - sem informar que todas as nomeações em órgãos públicos passam pela Casa Civil.

3. Colocou a taxa de sucesso de 6% no caso de obtenção de financiamentos, como se fosse referente aos contratos obtidos junto aos Correios.

4. Montou toda a encenação (das reuniões sigilosas, das conversas com Erenice sobre a propina) em cima de uma informação falsa: a de que os 6% se referiam aos contratos dos Correios e ao trabalho junto à ANAC.
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