terça-feira, 7 de outubro de 2008

A vocação peemedebista do PSDB



Há 20 anos quando uma turma de “autênticos” saiu do PMDB bradando por ética e por um partido com princípios parecia para alguns que o cenário político brasileiro finalmente teria um representante da social democracia ao estilo europeu. Configurar-se-ia, assim, o tripé da democracia representativa burguesa, com um partido de bases de esquerda (PT), a social-democracia do PSDB e um partido que aglutinaria os setores mais conservadores da sociedade, hoje representado pela sigla DEM. Entre um e outro espectro, agrupamentos à esquerda mais radicalizados e sem base social (que o velho Lenin considerava a doença infantil do comunismo) e uma chuva de asteróides de fisiológicos espalhados por siglas que mais ninguém lembra o que se referem, como o próprio PMDB, o PTB, PDT, PPS e por ai vai. O PV, outro partido de inspiração européia, só herdou de seu primo europeu o nome, no Brasil exerce com competência sua missão de ser um balcão de negócios – caminho que o PCdoB aprende e aperfeiçoa rapidamente.
A história recente do país, no entanto, mostra que todos os cenários descritos nos velhos manuais de sociologia e ciência política podem continuar pegando pó nos armários, pois pouco refletem a trajetória desses partidos. O PT se configura como um competente partido social democrata, enquanto o PSDB se esfarela em disputas internas e não apresenta nenhum projeto consistente ao país, a não ser a repetição da surrada fórmula do neoliberalismo do consenso de Washington, que já deveria estar sepultada a sete palmos e é a gênese da atual crise do capitalismo.
O caso das eleições de São Paulo é típico sobre os caminhos que o PSDB trilha. Os principais caciques tucanos são oriundos do Estado. Desde 1994, os candidatos à presidência são da base paulista: FHC duas vezes, Serra e Alckmin. E justamente onde os emplumados têm seus grandes nomes, uma disputa entre Serra e o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, levou o PSDB a lançar um candidato e fazer campanha para outro, o atual prefeito Gilberto Kassab.
À primeira vista, a passagem de Kassab para o segundo turno parece representar uma vitória para o projeto “Serra presidente”, mas significa, a médio prazo, mais uma pá de terra na cova do partido sonhado por Covas. Num momento em que o DEM perde força no Nordeste, seu tradicional reduto, e o casamento com os tucanos dá mostras de esgotamento em vários campos, o esquema Serra revigora o neoconservadorismo mesmo que o custo seja deixar seu próprio partido em frangalhos irrecuperáveis. Este é o bom companheiro que quer ser presidente da República.

Herança janista
Alçado quase ao acaso prefeito da maior cidade do país, Kassab manipulou com competência o sentimento conservador e autoritário de parte da sociedade paulistana; a mesma que ideologicamente aplaudia os ataques histriônicos de Jânio Quadros. Utilizando de apelos circenses como fechamento de casas noturnas, Kassab angariou simpatia de certa parcela da população. Alie-se a esse fato bom momento em que vive a economia do país, que reforça a tendência para que a população mantenha no governo quem já está – fenômeno que aconteceu em todas as capitais – e a eficiente propaganda de mídia promovida pela coligação do DEM, que dispunha do maior tempo de TV, e se configura um cenário quase inimaginável anos atrás: o PSDB se torna apêndice do DEM no principal reduto tucano.

Vitoriosos e nem tantos
Independentemente de vencer ou perder no segundo turno, Kassab se apresenta como nova liderança no campo conservador. O PSDB, no entanto, perde em qualquer cenário. A vitória de Kassab tende a aprofundar o racha tucano e Serra sabe que ainda não pode prescindir da máquina de seu partido na sucessão presidencial. Cada vez mais, o atual governador assemelha seus métodos ao de Orestes Quércia, que loteou o PMDB de acordo com suas conveniências políticas, mas pagou o preço de se tornar um partido inchado, sem referência programática e que serve apenas de suporte para outros. O sonho acalentado por Quércia, de ser presidente, acabou no momento em que fez a opção de desconfigurar o PMDB. Serra segue o mesmo caminho com seu PSDB.
Por irônico que pareça, o melhor caminho para o PSDB sobreviver como partido que polariza projetos para o país é justamente os eleitores de Alckmin votarem em Marta e montarem uma competente oposição. É um caminho difícil, mas menos suicida.

Só para constar
Em São Paulo disputam dois projetos; no Rio a população nem tem essa opção. Ninguém merece ter que escolher entre Eduardo Paes e Gabeira, o eterno e o neo reacionário.
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