quarta-feira, 3 de setembro de 2008

As várias cabeças da serpente

As recentes denúncias sobre grampos no Supremo Tribunal Federal (STF), promovidos, a princípio, por membros da Abin, ainda estão longe de serem esclarecidas: tanto seus autores quanto a motivação que levou à realização do grampo e, principalmente, sua divulgação em uma revista de circulação nacional. A conversa que veio a público entre o senador demo Demóstenes Torre (GO) e o presidente do STF, Gilmar FHC Mendes, é absolutamente prosaica, sua divulgação teve o único e específico interesse de mostrar que a escuta clandestina existe incrustada em todos os cantos de poder de Brasília.
A Abin é a sucessora do SNI (Serviço Nacional de Informação), órgão da ditadura que, apesar de oficialmente extinto, deixou marcas e vícios na estrutura da agência, que ainda os reproduz cá e lá.
O episódio do grampo no STF, apesar de constitucionalmente condenável e institucionalmente perigoso, serviu para contemplar vários interesses. Entre eles:
Novamente, em um período pré-eleitoral, em que a figura pública do presidente Lula tem grande peso no eleitorado, surge um escândalo para tentar colocar o governo na defensiva. Isso não ocorreu porque Lula determinou imediatamente a suspensão de toda a cúpula da Abin, a começar pelo poderoso Paulo Lacerda.
O chefão da Abin é a segunda cabeça dessa serpente; o ex-diretor da Polícia Federal colecionou nos cinco anos à frente da instituição alguns amigos, admiradores e muitos, muitos inimigos. Seu afastamento foi celebrado com tim-tim de 12 anos em diversos recônditos de Brasília.
O ministro da Justiça, Tarso Genro, também está no meio do tiroteio. Na busca de aglutinar setores mais à esquerda do PT e, ao mesmo tempo, flertar com a possibilidade de concorrer à sucessão de Lula, comprou briga em diversos setores, levou pito do presidente e foi posto na defensiva com o episódio dos grampos. Perdeu força na escala lula de poder.
A Abin e a PF travam uma feroz batalha por espaço político, disputas de atuação, fogueiras de vaidades e... recursos. Nesse embate sobra lama para todos os lados.
Quem, no final, faturou com o episódio, foi Gilmar FHC Mendes. De vilão da dupla soltura de Daniel Dantas, Gilmar “Fornecedor de Habeas Corpus” Mendes se tornou vítima de escuta telefônica, posou de durão e engrossou a voz com Lula, que não passou recibo (aguardem que tem volta, o presidente sabe dar o troco).
No meio do tiroteio, o ministro Nelson Jobim (Defesa), vislumbra a possibilidade de voltar com força à cena política e ainda alimentar o sonho de 2010. Como se percebe, 2010 é um número cabalístico no esoterismo político brasileiro
O lacuna deixada por Paulo Lacerda, que assumiu a Abin há menos de um ano, será preenchida por Wilson Roberto Trezza , que já trabalhou para Daniel Dantas. Brasília não é terra de amadores.
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