quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Movimento sindical deve ficar mais atento a questões de raça e gênero


Em 20 de novembro comemorou-se o Dia da Consciência Negra, data instituída para lembrar a morte de Zumbi, em 1695, líder do quilombo dos Palmares e símbolo da resistência do povo negro.
Apesar dos avanços nos últimos anos em termos políticas afirmativas para a população negra e da criação de uma sercretaria com status de Ministério, a Seppir (Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial), muita coisa ainda há para se fazer.
Na Petrobrás desde 1974, militante de todas as lutas sindicais nos últimos 35 anos e dirigente do Sindicato dos Petroleiros de São Paulo desde 1991, Macer Nery, atual tesoureiro do Unificado-SP, é franco ao afirmar que o movimento sindical ainda se preocupa menos do que devia com questões de gênero e raça.

Em todos esses anos de Petrobrás, você foi discriminado alguma vez por ser negro?
Macer Nery – Eu comecei a trabalhar na Replan em 1974, aos 31 anos, como instrumentista de sistema, cargo que nem existe mais, e sempre fui muito expansivo, jogava bola com os colegas, cantava no coral, nunca dei chance para me discriminarem, mas cheguei a saber de casos com outros companheiros negros. Havia brincadeiras, é claro, mas sempre soube me impor pelo respeito.

E fora da Petrobrás, já passou por essa experiência?
Com certeza. Lembro uma vez que estava com uns amigos na escola assistindo futebol, estudava em uma escola de classe média alta, e uma garotinha loira começou a passar um convite para uma festa que ia acontecer na casa dela. Passava pela arquibancada entregando um convite para cada pessoa, quando chegou na minha vez, ela simplesmente ignorou minha presença e entregou o convite para quem estava ao meu lado. Aquilo, apesar de hoje ter pouca importância, teve forte simbolismo para mim, era adolescente e ali me dei conta de que teria de enfrentar situações assim na vida pelo simples fato de ser negro.

Você considera que a situação melhorou para os negros, da época da sua adolescência para cá?
Acho que melhorou em alguns aspectos, a sociedade está mais atenta e intolerante contra atitudes racistas, mas no dia-a-dia ainda temos que avançar muito.

Em quê, por exemplo?
Nas relações de trabalho, por exemplo. Ainda hoje a população negra tem mais dificuldade de ascender profissionalmente, recebe salários menores, está em quantidade bem menor do que brancos em postos de comando nas empresas etc. Se for mulher e negra, pior ainda.

Qual a sua opinião sobre a política de cotas para negros?
Já participei de muitos fóruns em que esse tema foi discutido e ainda há divergências entre os próprios militantes do movimento negro. Eu, particularmente, acho que o Brasil não vai superar os problemas de discriminação apenas com leis, esse é um aspecto cultural estrutural da formação do nosso povo, mas nesse momento, as leis de cotas ajudam a quebrar algumas barreiras e permitir que negros e negras possam ter maior acesso ao ensino superior, por exemplo, que é uma forma efetiva de inclusão social. Acho que tem que haver alguma forma de reparação à população negra pelos séculos de sofrimento e escravidão a que foi submetida.

E como o movimento sindical se insere nesta luta?
Eu acredito que o movimento sindical ainda não encara essa luta com a devida importância. Existe na CUT Nacional uma secretaria específica para as questões das mulheres, mas não para a de raça, apesar de a Central e os sindicatos produzirem materiais, fazerem manifestações etc., mas ainda é pouco. Uma coisa comum de acontecer no movimento sindical, de maneira geral, é que quando aparece alguma demanda em relação à questão de raça, a diretoria encarrega um negro de assumir o problema, como se isso não fosse compromisso de todos os dirigentes, independentemente de cor, mas estamos avançando nestes últimos anos e nosso sindicato tem tido posturas coerentes de luta contra todas as formas de discriminação.

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