sexta-feira, 25 de novembro de 2016

TEMER E O MAL-ESTAR NA CULTURA




No prefácio da edição de uma de suas obras mestres (O mal-estar na cultura), Sigmund Freud apresenta: 

"É impossível escapar à impressão de que os seres humanos geralmente empregam critérios equivocados, de que ambicionam poder, sucesso e riqueza para si mesmos e os admiram nos outros enquanto menosprezam os verdadeiros valores da vida" (O mal-estar na cultura, de 1930).


O livro foi escrito no início da maior crise até então do capitalismo (1929), não trata de política no estrito senso, mas não deixa de ser político ao questionar os valores humanos e a impossibilidade de alcançar e manter a plena felicidade.

Saltando de 1929 para 2016. Uma das primeiras polêmicas do governo golpista de Temer foi a extinção do Ministério da Cultura, medida injustificada sob qualquer ponto de vista visível; afinal, o orçamento do MinC é o menor entre todos os ministérios (2,6 bilhões em 2015), valor irrisório para fazer cócegas na crise. 

Ninguém entendeu, sociedade, artistas e estudantes se mobilizaram e o mordomo recuou.

Seis meses se passaram e as denúncias do ex-ministro Marcelo Calero começam a jogar mais luzes sobre a bizarra e mal-sucedida decisão de extinguir o MinC. 

Calero acusou o poderoso ministro Geddel Vieira Lima de ter feito pressão para que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico, vinculado ao MinC) fechasse os olhos e aprovasse a licença para a construção de um edifício onde Geddel tem um imóvel. Calero foi mais longe e acusou o próprio mordomo de intervenção. 

O caso ganhou contornos de crise de estado e pode ser a ponta de um iceberg de interesses privados por dentro do Estado - questão que não é nenhuma novidade.

O episódio deixa mais claro porque o interesse inicial de se acabar com o MinC. É um bom fio de novelo a ser puxado.

Pelo visto, a única cultura que Temer transita com tranquilidade é aquela localizada na rua Cenno Sbrighi, que veicula um tal Roda Viva.

Em tempo: vergonhosa e emblemática a posse de Roberto Freire (PPS-SP), às portas fechadas, como novo ministro da Cultura. Esse, pelo menos, Temer sabe que pode confiar.
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