domingo, 17 de abril de 2016

Confiança e apreensão marcam a participação no Vale

Luciana Brotini




No Vale do Anhangabaú, a população começa a chegar. Músicas de resistência e protesto animam os que aproveitam os 32 graus do concreto seco do vale e o transformam em calor vibrante de quem acordou pensando em ver a democracia triunfar. Otimismo e preocupação se mesclam, todos parecem ter consciência de que a votação em Brasília será apertada e tensa. Mas, por enquanto, é acompanhar e gritar "não vai ter golpe"!

Passava das 9 horas da manhã quando o Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, começou a ser ocupado por militantes e movimentos populares, vindos de diferentes pontos do Estado, para defender o mandato da presidenta Dilma Rousseff, que está sob ameaça dos conservadores que não aceitaram o resultado das urnas e levou o Brasil a uma crise política.

Ao longo de todo o domingo, os que comparecerem ao Vale do Anhangabaú irão acompanhar um grande ato político em defesa da democracia com a participação de políticos, artistas e lideranças de movimentos.

O soldador André Bispo dos Santos, de 40 anos, veio com seu filho de 11 anos, lutar pela manutenção dos direitos sociais conquistados nos governos Lula e Dilma, que estarão em ameaça caso o impeachment aconteça. “Foi este governo que construiu o Brasil que vivemos. Antes o país estava acabado e foram dadas condições para quem não tinha, aos mais necessitados. A oposição perdeu no voto e agora querem tirar no grito? Jamais”.

Luiz Carlos Manoel, de 57 anos, é autônomo e também mora em Diadema. Contou estar apreensivo hoje, mas diz que a luta nas ruas é o caminho.  “Desde os anos 80, ainda na época da ditadura, estou nas ruas. Compareço em todos os movimentos que tenham as bandeiras da esquerda. E agora, contra o golpe, estarei junto”.


Aos 75 anos, a aposentada Elizabeth Graciolli diz, com um leve sorriso, que é de esquerda dede pequena. "Tinha 13 anos quando Getúlio morreu, desde então me posiciono politicamente, não sou filiada a nenhum partido, mas acho que temos de participar, é muito triste ver o que está acontecendo, mas tenho fé de que vamos vencer, diz a simpática senhora, acompanhada de sua sobrinha, Verônica, de 20 anos, que este ano tentará entrar na faculdade de psicologia."sempre acompanho minha tia nessas manifestações, acho importante".

Leide Sônia Moraes é de Itapevi. Aos 55 anos, ela é professora e técnica administrativa e estava acompanhada de sua amiga, Helena de Oliveira, de apenas 8 anos. “Trouxe ela para vivenciar tudo o que está acontecendo em nosso país. No futuro, ela vai poder contar para seus filhos e netos que viveu esse momento”.

Luciana Brotini, carioca que mora há 25 anos em São Paulo, diz que a semana foi de coração apertado porque você vê o grupo de lá em uma loucura, um ódio, junta o pessoal da Câmara, o Cunha, o Senado, mas estou confiante, não vai ter golpe mesmo".

A jovem Marília Amorim, de 19 anos, é estudante e mora no centro da capital paulista. Chegou junto com as amigas para se somar à corrente dos que defendem a democracia. “Espero que dê tudo certo [a votação na Câmara] porque, se for aceito esse impeachment, voltaremos ao século passado. E quis acompanhar aqui no Vale, pois precisamos dessa energia positiva”.

Henrique Lins, de 37 anos, professor de Filosofia, se diz preocupado e com medo do que possa vir a acontecer. "Cresci estudando nos livros de história o que foi a ditadura militar e hoje vemos uma união espúria de uma oposição que não se conforma de ter perdido 4 eleições, unida a uma mídia golpista e que quer encontrar um atalho para chegar ao poder, isso é inadmissível. Vestindo uma camiseta lilás do Corinthians, Henrique diz que o clube tem tradição democrática. "Espero que as torcidas percebam que são joguetes nas mãos de uma CBF corrupta e de uma Rede Globo manipuladora. Espero que as torcidas se unam em defesa de um futebol democrático no país".

Texto: Rafael Stemberg e Norian Segatto

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