segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Adeus a Ana Canônico


Conheci Ana em 2006, ela veio me procurar para editar o livro de poesia de seu filho, Mauro, me contou, quase em confidência e com certo embaraço, que ele sofria de alguns distúrbios e que a edição de seus poemas poderia ser benéfica para o processo terapêutico do filho. Expliquei-lhe sobre as dificuldades de comercialização de poesia, questionei se isso não poderia gerar mais ansiedade e ter efeito contrário ao desejado inicialmente. Ela reafirmou o desejo seu e de seu filho de ver as poesias editadas. Soube, depois, que Mauro sofria de esquizofrenia.
Os poemas tinham qualidade, apesar da irregularidade; escrevi a orelha de apresentação, organizamos um lançamento, Mauro estava radiante, nervoso e confiante em seu trabalho, Ana parecia feliz. Ficou com a maioria dos exemplares da edição e pretendia levar o filho para saraus e eventos literários. O livro, Maura Escritura (Ed. Limiar).

Buscava, pela arte, a cura que a ciência lhe negava. Ana dedicava sua vida a cuidar do filho.
Anos depois ela me procurou para editar outro livro, de qualidade bem inferior, mas dentro do mesmo espírito de dar vazão ao processo criativo.
Nos falamos pela última vez em abril, ela dizia que o filho acreditava que seus livros vendiam 100 mil exemplares por mês e ela, a mãe, ficava com o dinheiro. Queria que eu conversasse com Mauro para explicar que ver a referência de seu livro em algum site não era sinônimo de vendas.
Não houve tempo para essa conversa, no dia 3 de agosto Mauro teve um surto e assassinou sua mãe em sua residência.
Ana Canônico, mulher forte de olhar triste, era guerreira de uma única batalha: salvar o filho de seus próprios demônios. Ambos perderam.
Reproduzo, a seguir, uma poesia de Mauro, publicada no livro Maura Escritura.

 


Obsessão

Dos anjos um ser profano

eu vi o diabo

criador da mentira com engano

o ser do profeta tirano

fazendo rima ao som do dano

pra música vil e leviana

velar a quem se dana

se ao ver o horizonte o adorasse

faria ao meu fruto soberano

e pedi então que num momento ele passasse

a rota do passar dos anos

que à sua vista já estava se movendo

e a causa dos meus dissabores

e ele disse que se muito funda e falsa

solta a alça de terrores

e depois os desenlaça

mas o vi na encruzilhada

dizendo ser um santo

e da palavra ao ar roubada

transformá-la em espanto

e ao sabor de suas oferendas

falou da causa das contendas

e do tom em obscura magia

que à inveja ele fazia

e do rodear a Terra à sua via

do descanso dos hipócritas

fazer peso à hipocrisia

que se transfigurando leva escrituras

aos santuários para os adentrar

e com Deus aí travarem lutas

que num raio à Terra o fez chegar

ao poder sua mente

ver ao cigarro e cachaça

lhe dar prazer no que aos outros embaraça

perguntei de algum vão nele escondido

no relincho à sua gargalhada

e onde mora o perigo

da sua paixão desvirtuada

por uma bruxa conhecida

que lhe deu uma vassourada

quando eu gastava em drogas meu dinheiro

por que não me deu aviso de primeiro

e como a loucura por inteiro

faz ao órgão obstruído

mas ele foi ao nada

e ainda hoje ouço

o eco de sua risada

e lembro do relance do céu onde vivia

não há dinheiro

não há vida

eu não preciso do seu conselho

leve meu dinheiro

leve minha vida

eu não preciso do seu conselho

foda-se seu dinheiro

foda-se sua vida

eu não preciso do seu conselho

apenas loucura e obsessão.


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