sexta-feira, 4 de julho de 2008

Companheiro chora, sim


“Companheiro, seja forte, não chore!”

Com essa frase, olhos marejados, o então líder sindical Lula abraçava forte o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Jair Meneguelli, ambos não continham as lágrimas. Poucas horas antes, a ditadura militar anunciara a intervenção no sindicato. Às 17h recebi um telefonema avisando da intervenção e fui direto para a sede dos metalúrgicos de São Bernardo. Eu não era metalúrgico, mas achei importante estar solidário àquela luta. Durante quase o dia todo estivera nas portarias da General Motors, em São Caetano do Sul, panfletando e chamando os trabalhadores à paralisação convocada por metalúrgicos, bancários e petroleiros entre outras categorias. Era o primeiro ensaio geral de greve orquestrada pelo então embrião da Central Única dos Trabalhadores.

Sindicato lotado, muita exaltação, discursos emocionados. Lula e Meneguelli conversavam com os trabalhadores, pediam serenidade, confiança no futuro e na organização da classe trabalhadores. Cerca de 100 quilômetros dali, a cena se repetia no Sindicato dos Petroleiros de Campinas. Jacó Bittar anunciava que também a entidade dos petroleiros havia sofrido intervenção federal. As refinarias do Planalto, em Campinas, e de Mataripe, na Bahia, foram invadidas e ocupadas pelo exército: 153 petroleiros foram demitidos em Paulínia e 205 em Mataripe.

A causa da greve foi um pacote econômico baixado pelo general de plantão, João Batista Figueiredo, atacando direitos dos trabalhadores. A greve não foi geral como pretendiam os trabalhadores, mas atingiu importantes categorias, como petroleiros, metalúrgicos, metroviários e bancários, cujo sindicato em São Paulo, à época dirigido por Luiz Gushiken, também sofreu intervenção.

A tentativa da ditadura de sufocar a crescente organização dos trabalhadores foi um fiasco. O movimento sindical assimilou o golpe, vergou, mas não caiu, criou formas criativas de mobilização e de manter a organização: comitês de solidariedade foram criados, trabalhadores que continuaram nas refinarias ajudaram com dinheiro e alimentos os demitidos, e a velha máxima, “o que não me destrói, me fortalece”, nunca se fez tão presente. O choro de Lula, Meneguelli, Bittar e tantos outros se transformou na arma dos trabalhadores contra a opressão.

Um mês depois a CUT foi oficialmente criada. Nas ruas, na Justiça e na marra, os trabalhadores reconquistaram suas entidades, reverteram as demissões e saíram ainda mais mobilizados e conscientes de que venceriam a guerra contra a longa noite da ditadura.


Neste dia 5 de julho, o Sindicato dos Petroleiros de São Paulo estará realizando na sede de Campinas um ato para relembrar os 25 anos da greve. As atividades começam a partir das 9h.
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