quarta-feira, 26 de abril de 2017

HOMEM NÃO CHORA





O ano era 1983, julho, o Brasil afundava em uma de suas maiores crises com inflação anual de mais de 100%, ditadura militar ainda intacta, modelo econômico ditado pelo FMI. No primeiro semestre daquele ano, vários projetos propondo arrocho salarial foram enviados ao Congresso, que os iria aprovar sem contestação.
Os movimentos populares e, principalmente, o movimento sindical, vivia uma fase de ascensão, mas não haviam estruturas verticalizadas como federações e centrais sindicais. Seu embrião era a Comissão Nacional Pró-CUT.

Contra os projetos de arrocho e os ditames do Fundo Monetário Internacional, o Sindicato dos Petroleiros de Campinas organizou, no dia 6 de julho daquele ano, uma greve da categoria. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo também paralisou fábricas em solidariedade aos companheiros de Campinas.
Eu morava em São Caetano, era estudante, e a orientação dos movimentos era tentar parar a General Motors, a grande empresa automobilística da cidade. Trabalho difícil, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano era a quintessência do peleguismo (sequer apareceu nas portarias nesse dia), coube à oposição metalúrgica e militantes de movimentos (como eu) tentar segurar a peãozada. A fábrica ocupa quase um terço da área da cidade, possuí dezenas de entradas e vários “caminhos de rato”, parar aquela estrutura requeria dúzias de pessoas em piquetes com quase certeza de repressão.
Fui designado para um dos piores portões, encravado entre muros, com apenas um saída para rua. Já havia sofrido emboscada da polícia nesse mesmo local e sabia que não tinha para onde correr. Fomos para o piquete, a polícia apareceu, um vereador do PT tentou mostrar sua identificação e tomou logo um safanão, alguns correram para um dos poucos bares ainda abertos na ruela. Por algum motivo, no entanto, a polícia apenas dispersou os “piqueteiros” sem usar de repressão descabida.

Intervenção
O restante do dia foi de tentativas de parar outras fábricas, reuniões e avaliações. Voltei para casa no final de tarde e recebi um telefonema avisando que o governo havia decretado a intervenção nos sindicatos de Campinas e nos Metalúrgicos de São Bernardo. Peguei um ônibus e fui para lá.
A entrada do Sindicato estava lotada, trabalhadores queriam informações, organizaram uma assembleia. Havia um estupor no ar. Encontrei a vereadora paulistana Teresa Lajolo, que me abraçou sem dizer nada, um misto de choque e emoção. Ficamos ali assistindo a assembleia.
O então presidente do Sindicato, Jair Meneguelli, tentava, ao microfone, explicar o que havia acontecido, a entidade sofrera intervenção governamental, a diretoria seria dissolvida e interventor assumiria a sede. Tentava acalmar aquela pequena população enfurecida, que queria partir para o pau ali mesmo, quebrando tudo. Lula assumiu o microfone, acalmou os metalúrgicos e disse que o governo poderia ocupar a sede, mas a diretoria continuaria seu trabalho em outro local. Pouco mais de uma hora depois, a assembleia foi encerrada; as expressões eram de raiva e luto, de alguém que perdeu sua casa, uma pessoa de sua família. Na saída vi Meneguelli chorando sem qualquer pudor. Lula se aproximou, deu-lhe um forte abraço e disse, também entre lágrimas escorrendo de seu rosto: companheiro, coragem, homem não chora.
Homem chora sim, os dois choraram naquela hora como muitos outros ali presentes. Quinze dias depois, mesmo sob intervenção, o Sindicato (assim como os petroleiros de Campinas e mais de outras 130 entidades em todo o país) participou de uma greve geral que parou o país, colocou em xeque as políticas econômicas da ditadura: a primeira greve geral sob o regime autoritário.

No mês seguinte era fundada a CUT e um novo capítulo da história do movimento sindical começava a ser escrita.          
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