quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Gabrielli explica a compra de Pasadena e defende estratégia do negócio

Em fevereiro deste ano, o jornal Petroleir@s (Sindicato Unificado dos Petroleiros de SP) entrevistou com exclusividade o ex-presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli (edição 891). Por falta de espaço, algumas questões abordadas por Gabrielli não foram publicadas na versão impressa, uma delas dizia respeito à compra da refinaria de Pasadena, e que se tornou um dos argumentos para o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Pela importância que o tema novamente ganhou, reproduzimos a resposta do ex-executivo da Petrobrás, que ajuda a esclarecer as motivações econômicas e estratégicas que envolveram a decisão de comprar a refinaria. Confira a seguir a entrevista concedida a Norian Segatto.


Pergunta - Quem é leigo e lê as notícias sobre a Refinaria de Pasadena fica sem saber o que pensar de tantas informações desencontradas. Qual é o seu ponto de vista sobre a compra da refinaria, foi um mau negócio para a Petrobrás?

José Sérgio Gabrielli - Primeiro é preciso saber porque a Petrobrás comprou a refinaria nos Estados Unidos. Essa estratégia foi definida em 1997, naquele ano havia a perspectiva de não crescer o consumo de gasolina e diesel no país, de estagnação do consumo de derivados. Também era previsão, em 1997, que a produção de petróleo Marlim ia crescer. Se vai crescer a produção de petróleo e não vai crescer o consumo, não tem sentido crescer a refinaria no Brasil e sim buscar refino lá fora. Essa era a estratégia implementada pela Petrobrás até 2005. Em 2005, depois de ver várias refinarias, encontramos a de Pasadena, que estava relativamente barata, localizada no centro do refino norte americano, no Texas, que possui capacidade de refino de três milhões de barris, mais do que o Brasil todo refina; estava localizado na boca de um oleoduto de extraordinária capacidade para levar petróleo do Golfo do México a Nova Iorque, ou seja estava em um lugar logisticamente muito adequado.

A refinaria foi comprada por 7.400 dólares o barril, incluindo a refinaria. Como a capacidade de produção era de 100 mil barris, a Petrobrás comprou 50% por 380 milhões de dólares. Em 2006 ocorreram no mundo 11 grandes compras de refinarias, cinco delas nos Estados Unidos, a refinaria mais barata comprada nesse período foi por 3.400 dólares por barril, a mais cara, 19.500 dólares por barril, a média, 9.300 dólares, ou seja, a Petrobrás comprou abaixo da média. Por aí não pode dizer que teve prejuízo.
“O prejuízo vem de um parecer feito pelo ministro José Jorge, do TCU, que foi ministro de Minas e Energia de Fernando Henrique Cardoso, foi presidente do PFL, foi candidato a vice-presidente de Alckmin [Geraldo]. Ele desconsiderou o parecer dos técnicos do TCU... esse parecer é politicamente motivado, não é tecnicamente justificado” 
Uma segunda lógica. Quanto se esperava ganhar com a refinaria? No Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica, a Petrobrás projetava uma margem conservadora de 2006 até 2014. Se comparar essa projeção de margem operacional, com o que efetivamente ocorreu, a refinaria gerou 760 milhões de dólares a mais do que a Petrobrás esperava. De onde vem o prejuízo então?

O prejuízo vem de um parecer feito pelo ministro José Jorge, do TCU, que foi ministro de Minas e Energia de Fernando Henrique Cardoso, foi presidente do PFL, foi candidato a vice-presidente de Alckmin [Geraldo]. Ele desconsiderou o parecer dos técnicos do TCU, que por três meses ficaram dentro da Petrobrás  e atestaram que não teve erro no cálculo do preço da refinaria. Ele desconsiderou uma segunda auditoria, que também chegou à conclusão que não teve problemas, pegou um assessor de sua confiança que em 30 dias, sem ter ido uma vez à Petrobrás, cometeu vários erros de interpretação e erros técnicos.

O principal problema é ele faz um conceito de prejuízo pelo que foi pago pela refinaria e abate de uma das 27 planilhas feita por uma consultoria contratada pela Petrobrás. Por esse cálculo a refinaria deveria custar 1.860 dólares por barril, não existia isso em lugar algum, a mais barata foi 3.400. Consequentemente, o conceito de prejuízo que está nesse parecer é politicamente motivado, não é tecnicamente justificado.    
 
Outro conceito de prejuízo é o olhando para frente. Em dezembro de 2012, a Petrobrás levantou o que foi investido na refinaria, calculou o que ela poderia dar de margem no futuro, com as taxas de juros de 2012, projetou no futuro e identificou um prejuízo de 530 milhões de reais. Esse prejuízo foi lançado no resultado da Petrobrás, não tem nada a ver com o preço de compra.

Em 2013 e 2014 aconteceu um fenômeno muito importante nos Estados Unidos, a produção do gás de xisto e o dateoil, que é o petróleo de reservatórios fechados, geraram uma enorme disponibilidade de petróleo leve, barato e disponível, particularmente no Texas, através do campo de Eagle 4. Isso permite que a refinaria de Pasadena seja altamente lucrativa. Então, nos últimos dois anos a refinaria foi lucrativa. Onde está o prejuízo? É contabilidade política e não técnica.

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