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quinta-feira, 31 de maio de 2018

O dia em que Audálio Dantas escreveu um conto erótico




O jornalista Audálio Dantas foi se juntar a Alberto Dines e outros (cada vez menos) símbolos do bom jornalismo neste país. Morreu vítima de um câncer na quarta, 30.mai.2018.

Minha admiração por ele começou no final dos anos 70, quando ele presidiu o sindicato do jornalistas (eu ainda não exercia a profissão, mas ela já me fascinava) e se tornou deputado estadual, sempre defendendo os direitos humanos, àquela época, como agora, tão atacados.

No início dos anos 2000, sem conhecê-lo pessoalmente, tomei a ousadia de lhe fazer um convite: escrever um conto erótico para um livro que estava editando (Corpos, Editora Limiar). Ele achou bizarro e divertido o convite: "dizem que eu nem trepo, quanto mais escrever sobre isso", brincou e quis conversar pessoalmente antes de responder ao convite.

O desfecho dessa conversa foi um conto com uma das marcas peculiares de Audálio Dantas: o olhar humano do repórter sobre uma situação.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Valeu, Scliar!

Faleceu ontem (27/2/2011) o escritor Moacyr Scliar, um dos mais respeitados e instigantes autores brasileiros, ganhador de três prêmios Jabuti (2009, 1993 e 1988) e do prêmio Casa de Las Américas em 1989.
Tive uma rápida conviência com Scliar quando lancei o livro Corpos - contos eróticos. A proposta da publicação era fazer um apanhado do erotismo a partir da visão masculina e procurei escolher escritores de várias "vertentes".
Não conhecia Scliar pessoalmente, através de amigos consegui seu telefone em Porto Alegre. A Limiar estava apenas engatinhando, tinha publicado dois ou três títulos, era absolutamente desconhecida no mercado editorial. Mesmo assim liguei para o Scliar, expliquei o projeto do livro e perguntei se ele aceitaria participar da coletânea.
Com uma risada, que não era de ironia nem descaso, ele se surpreendeu ao ser convidado para uma coleção de contos eróticos, e me perguntou qual texto eu desejaria publicar. "Paixões orais", respondi.
- Pode publicar, como você costuma fazer com os direitos autorais? - perguntou
- Bem, somos uma editora pequena, a proposta é pagar uma porcentagem sobre as vendas.
- Ih! Isso é complicado, tem que ficar fazendo relatório sempre, eu prefiro que você proponha um valor e fique com o texto para publicar quantos exemplares quiser.
- E quanto seria este valor? - perguntei, já imaginando que não teria como pagar.
- Propõe você.
- Quinhentos? - quase gaguejei diante da miséria da oferta.
- É seu, pode publicar, me encaminhe um exemplar quando ficar pronto.

E, assim, por telefone, sem nunca ter me visto, fechamos sua participação no livro. O encontrei ao vivo na Bienal do Rio e de São Paulo em outras ocasiões e ele sempre foi muito solícito, brincando - equivocadamente - que eu era o editor mais jovem com quem ele já trabalhara.

Essa pequena mostra do generoso ser humano que era o doutor Moacyr Scliar explica, em parte, o grande e sensível escritor que o Brasil acaba de perder.